terça-feira, março 06, 2007

TEORIA DOS CONTRÁRIOS


A noite dá lugar ao dia e o dia caminha para a noite. A noite não pode, ao mesmo tempo, ser dia.

Em Fédon, pelas palavras de Sócrates e pela mão de Platão, a Teoria dos Contrários constitui-se argumento em duas das quatro provas de imortalidade da alma. A dimensão temporal apresenta-se como denominador comum, na medida em que se verifica que todo o contrário surge do seu contrário, mas também que os contrários não admitem simultaneidade.

Dizer que o frio nasce do quente, parte da observação de que algo arrefece (outrora aqueceu) à medida que o tempo passa. Torna-se então evidente que num preciso momento de intervenção (em que teoricamente o tempo fica suspenso) constatar-se-á que o ser quente exclui o ser frio. O tempo parece ser a causa e medida de tudo.

Mas apesar da exclusão de coexistência de contrários, percebe-se a presença atemporal de um “fio condutor”, de uma substância ou essência que interliga os contrários.



sexta-feira, janeiro 19, 2007

FELIZ TRISTEZA

A tristeza não existe; existe sim ausência da felicidade. Se adoptarmos esta interpretação toda a utopia estará mais perto de deixar de o ser. Encarar as adversidades que naturalmente surgem entre nós poderá resultar numa tarefa menos penosa.

Quando estamos tristes significa que a felicidade está ausente em nós, apenas temos de encontrá-la novamente pois ela não deixou de existir, apenas ”mudou de sítio”.
Procuramos, inquietamo-nos, estamos em constante actividade pelo facto de estarmos tristes, nunca por estarmos felizes.

A tristeza oculta e representa, ao mesmo tempo, um estado fértil de inspiração, criação e superação, além de permitir o reconhecimento do quanto é precioso sentirmos a felicidade.
Perante esta conjuntura, a inevitável tristeza apresenta-se como condição necessária para o alcance da felicidade.

Importa, porém, salientar que muitas das vezes somos nós próprios que oportunamente escolhemos o momento de sucumbir à tristeza. Se assim procedemos, talvez a tristeza não seja um estado tão predominantemente negativo; chamemos-lhe então ausência de felicidade.

terça-feira, novembro 07, 2006

DEUS E A RELIGIÃO

Dúvidas, perguntas… qual o verdadeiro caminho que nos leva até Deus? Por outras palavras: qual a verdadeira religião?

Atrevo-me a afirmar que nenhuma é verdadeira mas que todas juntas representam a verdade.

A proliferação de inúmeras religiões por todo o globo deve-se, fundamentalmente, à diversidade e multiplicidade cultural da humanidade.

O homem é constantemente moldado pelo meio envolvente. O espaço geográfico, o clima, a fauna e a flora entre outros, são factores construtivos e transformadores da consciência e do intelecto humano. Lugares tão distantes e distintos entre si justificam as diversas interpretações de Deus, que contudo parecem convergir para um mesmo ponto.

Deus, Alá ou Tao não são mais do que diferentes representações para uma mesma entidade criadora, fonte e razão de toda a existência.

É curioso e fascinante verificar as semelhanças que se encontram quando se analisam e comparam os relatos históricos e místicos de Jesus Cristo e Siddharta Gautama (Buda): Nos dois corre sangue real, ambos tiveram discípulos seguidores, passaram por provações semelhantes e “venceram” a morte. A similitude das etapas determinantes da existência de cada um é visível, e de certo modo inquietante.

Segundo tudo o que foi dito anteriormente, caminhar ecumenicamente ou caminhar na ausência da religião parecem ser decisões desejáveis.

Acima de tudo está o respeito pelo próximo e, consequentemente, por quem o criou; aquele que também nos criou.

Acima e à esquerda: pintura de William Blake.

quarta-feira, outubro 25, 2006

MÚSICA

Primeiro acto de comunicação com o divino, a música ter-nos-á sido revelada pelos deuses nos primórdios da nossa existência.

Desde então a sacralidade da música foi entendida e respeitada de tal modo, que a sua presença era inevitável e natural nos momentos de maior solenidade. Nas celebrações religiosas, nos ritos marciais, no enaltecimento do herói e até nos momentos de prazer e ociosidade a música está presente como elo de ligação com o mundo divino.

A música é a expressão mais completa e universal da humanidade. O som precede a fala e as palavras esgotam-se na tentativa de explicar o que o ouvido ouve e a alma escuta.

A música tem um efeito libertador que nos transporta para além dos limites do mundo físico e material, aproximando-nos da nossa verdadeira [sobre]natureza.

Ao escutarmos um tema musical de nosso agrado somos induzidos num estado meditativo que nos expõe perante nós mesmos. Esta experiência de auto-reconhecimento é fundamental na procura de respostas que não têm pergunta. A resposta deverá corresponder à causa e não à consequência.

quarta-feira, março 01, 2006

A MULHER E A GUITARRA

As semelhanças das curvas são evidentes e reveladoras da feminilidade do instrumento.

Assim como a mulher gera e faz brotar a vida a partir do seu interior, a guitarra tem também idêntica capacidade de produzir som que se torna audível pela amplificação gerada no interior da caixa de ressonância.

Através do toque da unha é induzida vibração na corda, que se propagará até à ponte para finalmente se precipitar no interior gasoso da caixa de ressonância, dando origem ao som.

O período de gestação é tão rápido que quase não existe, ficando a percepção de coincidência temporal da concepção com o nascimento.
A intensidade e sensibilidade do toque produzem reacções que evoluem para sensações que deverão ser previamente desejáveis.

O verdadeiro músico apaixona-se, sente, entrega-se e ama. Sabe ouvir com o coração para criar a cada gesto momentos únicos e singulares de emoção partilhada num leito comum de significâncias indefiníveis, mas profundamente sentidas. Reconhece nos pequenos e dispersos pormenores o mapa que lhe é revelado para chegar onde nunca esteve antes, mas que é seu lugar cosmogónico na presença desse alguém que sempre o acompanhou.

A sacralização do espaço em redor construirá o seu mundo, que será completado pela unificação harmoniosa de dois corpos que vibram em uníssono ao som de uma mesma nota imutável.

sábado, fevereiro 11, 2006

PROVA DE VINHOS

Este processo de análise sensorial passa por separar, ordenar e identificar as impressões dos estímulos e características organolépticas das diversas substâncias contidas no vinho, através dos sentidos da visão, do olfacto e do sabor, com especial atenção ao conjunto dos dois últimos, que formam o “flavor”.

Sem o olfacto a percepção do sabor será imperfeita.

Ao nível da Visão são verificadas características como a cor, a espuma, a limpidez, a viscosidade e a efervescência.

Com o Olfacto revelam-se os aromas primários (do fruto; vinhos jovens), os aromas secundários (da curtimenta; vinhos novos), e os aromas terciários ou “bouquet” (fusão dos aromas secundários e terciários; vinhos envelhecidos).

No Sabor identificam-se o gosto doce (álcool e açúcar; na ponta da língua), o gosto ácido (ácidos; nas zonas laterais da língua), o gosto salgado (sais; no final das zonas laterais da língua) e o gosto amargo (taninos; ao fundo da língua).

Todo este processo poderá ser sinteticamente dividido em três etapas distintas:

1ª - O gosto instantâneo (concentração nas diversas zonas da língua)

2ª - A evolução ou variação do gosto

3ª - O gosto final, após o vinho ingerido ou deitado fora (“fim de boca”).

sexta-feira, dezembro 09, 2005

GUITARRA PORTUGUESA













A desmistificação da guitarra portuguesa passa pelo aproximar às “hostes terrenas” da sua real presença física e material, e não de um espectro de si mesma que tem proliferado desde o seu nascimento originando um mundo paralelo, arredado e sem pontos de contacto com o comum dos mortais.

Este instrumento tem estado desde sempre envolto numa áurea de mistério em que os conhecimentos se passavam por via oral apenas a alguns, contribuindo para que ficasse a imagem de algo extremamente erudito e inacessível.
Todo este cenário passado e ainda presente reflecte o estado actual de escassez ou inexistência de qualquer tipo de registo escrito de material técnico e partituras para guitarra portuguesa.

De facto a guitarra portuguesa é impar na sua sonoridade e forma de tocar, devendo por essa razão ser dada a conhecer estando ao alcance de todos, pois faz parte das nossas raízes enquanto portugueses.

A guitarra portuguesa é um instrumento versátil com amplas possibilidades para poder trilhar o seu próprio caminho, saindo um pouco da “tradicional sombra” do Fado.